Resultados dos concursos alusivos ao Lobo-marinho

Desenho


Ana Raquel
1º classificada / 1ª faixa etária

Sofia Ferro
2ª classificada / 1ª faixa etária

Eliano e Carlota
3º classificado / 1ª faixa etária

Carlos Marques
1º classificado / 2ª faixa etária


História

A mais bela estrela do Céu

A tarde de hoje foi quente e agitada, num contínuo rodopio de gentes, vozes, sons, ruídos. Que lentamente abranda, e lentamente descansa.

O silêncio é quase total, acompanhado duma sinfonia não autenticada de mar, sol e cansaço.

O céu torna-se numa grande bola de fogo, espalhando o seu calor sereno, em tons de um rubor avermelhado. As, já em pouco número, nuvens solitárias deixam-se camuflar de bege e dourado. Por outras palavras, um típico pôr-do-Sol numa tarde de Verão.

Estou só e vazia, neste secreto espaço de mar e areia amadora preenchido. A água é bela, de uma pura beleza transparente, perfumada de frescura. A suave brisa sabe a sal, a chuva fingida, cheira ao Verão acabado.

Sinto-me intrusa nesta paisagem surreal, sinto-me um empecilho torto nesta pintura aperfeiçoada. Eu e a minha cadeira de rodas.

Não posso sentir a areia em meus pés, pois as minhas pernas são demasiado curtas, e mesmo que pudesse não conseguiria. De há dois anos p'ra cá, que as minhas pernas se moldaram insensíveis, tal parte abstracta do meu corpo, já que o abstracto não consegue ser controlável.

Não posso molhar o rosto, nem fazer a pele dos magros dedos enrugar , pois a maré está baixa e o caminho empedernido. E mesmo que pudesse não conseguiria. De há um ano p'ra cá, que os meus braços brancos se tomaram demasiado frágeis para suportar o peso do meu corpo, meio morto, meio dorido. Ainda conseguem força suficiente para rodar as rodas da cadeira ( sem tecnologia avançada ), mas por quanto tempo conseguirão?

Sei que estou a morrer, mas não penso nisso, não quero pensar. A fase da raiva inconformada com a injustiça da vida, já foi ultrapassada. Somente aguardo a chegada da morte. Que ela me carregue nos seus braços de mansinho, como se dum cristal se tratasse. Há dois anos que espero, e espero, e todos os dias e noites torno a esperar.

À espera de um dia em que, finalmente, consiga voar.

Foi o que disse alguém quando eu era pequenina: "No dia em que Deus te chamar, não chores, ele dar-te-á asas de oiro e ensinar-te-á a voar."

A chama reluzente já se extinguiu, dando lugar a um céu deserto pintado de rosa anilado, onde um diamante nasce ao acaso. Aqui, ali, acolá, até que todo o céu consiga
brilhar, e aí a Lua poderá chegar, devagar .

A paz melancólica instalada, hipnotizou meus olhos inexpressivos, espelho da minha alma dorida, fechando-os subtilmente. Os olhos alheios, julgavam que sofria de petrificação. Só eu sabia que ainda respirava.

E de súbito, como quem espera um imprevisto, um medroso movimento, roçou-me, ao de leve, como numa cócega perdida, a minha bochecha direita pálida, pálida e vazia. Não saltei de susto, a energia não é suficiente. Embora, meu já frágil coração numa reacção instintiva, tenha acelerado, muito depressa batido, perante o cenário que me esperava, surpreendido.

Um rosto escuro e molhado, desenhado com traços não humanizados, de finos bigodes esbranquiçados, observava-me, possuído pela natural curiosidade animalesca, levemente tocando, numa reacção imperceptível, aquilo que, aos seus olhos, se aproximava de um bicho raro.

De início, a natureza da criatura era-me desconhecida. Mas, sendo a madeirense que sou ( e tenho orgulho de ser ), o animal que sacrificou o nome ao mais famoso barco madeirense, consegui reconhecer.

Um lobo-marinho, uma cria pequenina, um bebé... Erro meu, um não, dois! Escondida, sob o pelo molhado do companheiro, possuidora durna maior sensatez e precaução, uma cria fêmea, igualmente pequena, dona do mesmo olhar curioso, presente também estava.

Até à altura, eu havia permanecido igualmente imóvel, mas os meus instintos maternais ( meus e de qualquer rapariga da minha idade ) soaram mais alto que a cautela que deveria ter e não tenho, incontrolados. Cuidada e vagarosamente, levantei a mão. Queria tocar-lhes, acariciá-los, sentir o seu pelo molhado em mim. E numa atitude, já esperada, mas que me entristeceu como se de imprevista se tratasse, recuaram assustados.

E numa conjunta telepatia simultânea, inexplicável, como são todas as telepatias, a fêmea aproximou-se, acariciando-me as pernas com, o que subtendi, ser carinho. Já tinha ganho a sua confiança, a dela e a dele. Os dois estavam entreligados numa união, em que as duas almas eram uma só, libertando tamanha energia, impossível de decifrar ,
mas que se tinha uma certeza certa de existir.

E num colectivo cumprimento, dedicaram-me a mais esquisitíssima , das mais esquisitas caretas, que lhes emugava a pele virgem e alumiava os primeiros dentes nascidos. Seria um sorriso?..

Se era, foi o mais feio sorriso que vi, mas também o mais precioso para mim! Um sorriso só meu, um sorriso tão especial e tão verdadeiro...

E pela primeira vez, em anos já incontáveis, todo o meu rosto, todo o meu corpo sorriu. Aquele gesto simples, de natureza ingénua, conseguiu roçar-me a superfície do coração, já esquecido, perdido nas dores da vida.

Aquele meu gesto, bastante me surpreendeu. Mas mais me surpreendeu o simultâneo "olá" daqueles dois, num fino guincho aguçado, que só eu conseguia decifrar. Era um convite, um convite ao desabafo, à partilha dos meus pensamentos escondidos. Aquilo pareceu-me estranho. Tão estranho... Como poderiam eles compreender-me?

Mas compreendiam. E eu não precisava das suas palavras para os compreender também. Bastava-me olhá-los:
- Vossos olhos negros são de uma transparência divina, tão transparentes como vidro inocente. - a minha voz soava estranha no escuro do silêncio total. Mas era para mim um reconforto maravilhoso conseguir escutá-la, pois assim eu sabia que alguém me ouvia. - Deixam transparecer quem são vocês, meus pequeninos... Não têm passado, não sabem do presente, querem lá vocês saber do futuro!... - E há medida que continuava a minha mecânica fala, maior se tomava a certeza, antes duvidosa, de ser verdade tudo aquilo que a mim verdade parecia.( E unânime era a certeza, ou aparentava ser. ) - Só se
têm um ao outro, irmãos de sangue, irmãos da vida. O outro é a maior riqueza para cada um... Felizes são vocês que não estão como eu...sozinha. - A minha voz, que parecera
quase sentimentalista, retomara ao seu tom original, fria e de uma insensibilidade, que até a mim me magoava. - Eu...eu não tenho futuro. Estou presa a esta "coisa" até aos restos dos meus dias infernais. - e de novo o olhar esvaziou-se. - Eu só quero voar.

Os dois lobos-marinhos num ritual irmão de imobilidade, numa atitude companheira, seguiam uma tentativa ( previamente falhada ) de sentir, perceber a raiz da minha mágoa dorida:

- Não tenho nada... Não tenho ninguém... Já nem patroa sou da minha vontade própria. Todos os meus desejos, secretas ambições, sonhos irrealizáveis, todos eles fugiram. Ainda bem, não era minha vontade desesperá-los a eles também. E se o Cálice de Fogo não mente, e o sonho comanda a vida, minha vida está perdida e minha alma também...

Eles não concordaram. Bateram as patas inconformados , guinchando com rebeldia e dissonância. Faziam-me lembrar um antigo “eu", outrora conhecido e amado, mas já esquecido. E num súbito susto propositado, a minha cadeira foi empurrada, fazendo-me cair ao seu lado, com ironia e discordância. Não me surpreendi, não me zanguei. Compreendi a mensagem.

Rebolei na areia húmida largando gargalhadas de uma esquisitice prazerosa ( eu afinal sabia rir!), e eles rebolaram comigo. Os três rebolando, numa só sintonia, numa só mente espiritual, iluminados pela Lua já nascida.

Deixei-me ficar deitada na areia olhando as estrelas, durante tempo incontável. A definição de tempo e espaço naquele lugar, por magia transformado, havia sido alterada, trocada, baralhada. Não sei se olhei o céu durante míseros segundos se por horas inteiras.

- Um dia...também hei-de ser uma estrela. E brilharei mais que as outras estrelas e a Lua juntas! - E não sei se foi sonho ou delírio mas um “clique" imponente soou na minha cabeça, despertando-me o olhar da alma. Era esse o meu sonho! - Sim! Era esse o meu sonho.

E os dois lobos, ainda bebés, enrolaram-se em mim, em algo que só podia ser um abraço. E foi o melhor abraço que eu recebi e alguém me conseguiu dar! Agora compreendo...Agora tudo é muito simples...

- Quem vos enviou amigos? Foi Deus “Todo-Poderoso” me preparando a chegada?..Foram os anjos que me olharam a vida e agora se despedem, na minha partida?.. Não sei, nem preciso de saber...Apenas sei que me devolveram o brilho aos
olhos mortos, a paz à alma perdida. Invadiram, roubaram meu coração, já julgado esquecido. É meu dever mortal, minha obrigação divina vos retribuir o amor celestial,
me oferecido no fecho da vida. Que poderei eu vos dar que vos seja merecido?

Pensei. pensei e voltei a pensar...Repensei. repensei e voltei a repensar...

Passei a vida a pensar, pensamentos fúteis e desnecessários, mais nunca pensei tanto como naquele momento crucial.

- Já sei. Vou-vos oferecer algo que nunca tive. Nunca ninguém mo deu, nem quis dar. Um nome. Vou-vos baptizar. - Consegui ler surpresa na reacção de ambos. Era mesmo isso! A prenda perfeita! Só a prenda perfeita os conseguiria surpreender como eu consegui.

- Tu... serás Beatriz. Um belo nome para alguém tão belo como tu. Quem tem este nome é especial, tem o dom raro de fazer os outros felizes. E tu fizeste-me muito feliz com pequenos gestos, pequenos sinais. E a muitos outros trarás essa mesma felicidade. Por isso eu te baptizo...Beatriz.

- Tu... serás Bernardo. Este nome é sinónimo de bravura, coragem assim como tu também és um seu sinónimo. Que melhor nome poderias ter? Aproximaste-te de mim
na perigosa aventura da descoberta do desconhecido. Esse foi o ponto de partida crucial
para que toda esta incrédula fantasia acontecesse. Por isso, eu te baptizo...Bernardo.

Respirei fundo, fiz a melhor coisa que alguma vez poderia ter feito. Estou feliz.

- Agora estamos ligados para todo o sempre, como contam as histórias. Vocês deram-me o meu sonho, e eu dei-vos o vosso nome. Estamos eternamente entrelaçados, em laços por mãos alheias inquebráveis. Eu sou a vossa madrinha. E vós, meus afilhados queridos e amados.

- Beatriz...Bernardo...o que vejo em vossos belos olhos são lágrimas? Porque choram?..Não importa...Se choram, choraremos juntos até a manhã nascer.

E assim foi dito, assim foi feito. Os três choraram toda a noite, no mais surreal dos choros, abraçados naquela praia iluminada pelo céu e abençoada pelo mar.

Mas a manhã não nasceu. Pelo menos para ela...

Era de madrugada e o sol já nascia, secando o orvalho húmido da Lua já guardada.

E naquela praia, uma rapariga morta foi encontrada, de roupa molhada e cheiro a peixe, como se de um lobo marinho se tratasse, tendo como sepulcro uma velha cadeira de rodas, também ela morta e quebrada.

Nunca se soube o que acontecera e nunca se virá a saber.

Os jovens do presente, avós prováveis do futuro, só têm uma recordação para as histórias aos netos contadas. A expressão jamais por alguém vista, no rosto da tal rapariga.

Morreu feliz consigo e com o Mundo. Seu belo rosto, pávido e sereno iluminava-se do mais belo sorriso que nem imaginar se conseguia.

Mas contam os madrigais dos apaixonados, que em noites de amálgamas de brilho e luz uma nova estrela nasce, a mais bela estrela do céu.

E apaga o brilho amador de outras irmãs estrelas e da mãe Lua...

Brilhando, reluzindo, cintilando...

Voando pelo Céu fora, com as mais belas asas de oiro que Deus deu...

Ana Margarida Vieira Bernardo
13 anos
Rua Pimenta Aguiar nº 6, 2°
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e-mail: margaridabernardo9@hotmail.com
Telefone: 291757584
Telemóvel: 916689626

Funchal, 15 de Setembro de 2003




 

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Última actualização em: 2024-11-20