Nasce nas Terras Altas da Ilha...


Porque será que em algumas partes do Mundo, é necessário pagar pelo consumo de um copo de água (da torneira) num estabelecimento, acto que surpreende a maioria dos madeirenses?!

E será que já pensaram porque motivo na Madeira isso não acontece ?! ... temos que nos considerar afortunados !!!

A fortuna, que possuímos e que muitos desejariam tê-la, é a água, fonte de toda a vida e sem a qual nenhum organismo sobrevive.

De toda a água que há sobre a Terra, só a centésima parte de 1% está facilmente ao nosso alcance, pois mais de 97% da água é salgada, menos de 3% é doce e a sua maioria está acumulada nos calotes polares. O Mundo tem cada vez menos água devido às desflorestações serem cada vez mais intensas, às zonas desérticas estarem a avançar e à percentagem da população mundial ser cada vez maior. O problema não se resume somente à água que falta mas também ao impróprio estado para consumo da que sobra!

Na Madeira não existem graves problemas de falta de água, por isso as pessoas ficam surpreendidas quando são confrontadas com o pagamento de um copo de água em determinados locais do Mundo. Mas é necessário saber poupar este bem tão precioso para que um dia não tenhamos que fazer o mesmo!

Na nossa Ilha os cursos de água nascem nas terras altas e correm para a costa, apresentando um caudal variável ao longo do ano. No Verão, muitos têm tendência a estarem secos enquanto que, no Inverno formam fortes enxurradas (aluviões) que, por vezes, causam catástrofes. É comum observar-se na costa norte, as águas em cascata nas escarpas ou a escorrer costa abaixo, e mesmo quando não chove, as várias nascentes naturais provocam a escorrência superficial da água. É nas partes altas da Ilha (centro montanhoso) que a água é armazenada e depois distribuída ao restante território, através das levadas (pensa-se que é retido anualmente cerca de 200 milhões de m3 de água). As levadas "nascem" nas partes mais elevadas da costa norte da ilha, visto que aí existe água durante todo o ano. Foram estes canais de irrigação que permitiram o encaminhamento deste líquido precioso para locais que dele carenciavam, contribuindo assim para o aumento da produção agrícola. Estes canais de irrigação constituem uma obra magnífica pela sua construção, atravessando e contornando toda a ilha, e representam o resultado de muito sacrifício e boa vontade por parte do Homem.

A água foi sempre sabiamente aproveitada como fonte de energia, quer actualmente quer em tempos passados, representando uma energia renovável ao serviço da conservação da Natureza, energia hídrica. Durante um certo período foi intensa a exportação de madeira para o continente assim como o fabrico de pequenas embarcações na Ilha, dada a excelente qualidade das madeiras. Para tal era necessário derrubar árvores e serrá-las de maneira apropriada, surgindo e disseminando-se assim, as "serras de água", instrumentos mecânicos que utilizavam a água dos ribeiros caudalosos. Outra utilidade da água foi na moagem dos cereais nas azenhas ou moinhos de água.

Actualmente, o aproveitamento deste recurso representa cerca de 24% da produção anual de energia eléctrica na nossa Ilha, com tendência a aumentar com novas centrais hídricas em funcionamento. A exploração energética deste nosso "bem valioso" é muito importante para a diminuição da dependência energética em relação aos derivados do petróleo e melhoria na qualidade do ambiente.

A existência de nevoeiros constantes a partir do litoral durante grande parte do ano tem uma influência decisiva no desenvolvimento da floresta, e a quantidade de água captada pela vegetação a partir de nevoeiros que é posteriormente infiltrada no solo, é superior à resultante da precipitação real. Como tal, a nossa floresta Laurissilva, para além da beleza exuberante e riqueza que apresenta, é importante na captação e retenção da água das chuvas e dos nevoeiros, sendo conhecida como "Floresta Produtora de Água"!

Visto que a precipitação aumenta com a altitude, a área onde decorre o actual projecto "Conservação da Freira da Madeira através da recuperação do seu habitat" English Version Versão Portuguesa é uma das zonas da Madeira onde mais chove. Fica entre os 900 e 1800 metros de altitude, no Maciço Montanhoso Oriental da Madeira e durante algumas fases do ano, cai neve e granizo em quantidade. A população, em geral, desloca-se até ao Pico do Areeiro para apreciar este espectáculo de beleza singular, e neste percurso podem observar um exemplar único no património cultural madeirense que é o Poço da Neve. Pertence à Câmara Municipal do Funchal desde 1936, e segundo "reza" a história, servia para aproveitar os grãos de granizo e os flocos de neve que nos dias de Inverno se precipitavam nos pontos mais altos da Ilha, pois o gelo era um bem raro e precioso, inacessível à maioria das pessoas. Outro regalo para o visitante durante o percurso, é o "mar de nuvens" que muitas vezes se apresenta na paisagem e que não é mais do que nevoeiros que se formam devido à subida de massas de ar carregadas de humidade nas encostas viradas a norte.

A situação deste bem natural na nossa Ilha, que é de extrema importância para a vida na Terra, não é semelhante à do resto do País. O sul do País está ameaçado pela desertificação que avança do Norte de África e da região oriental do Mediterrâneo, enquanto o Norte de Portugal, sendo mais rico em água, é por excelência uma área industrializada, onde há poluição resultante de efluentes não tratados.

Este recurso renovável, em circulação constante e que estabelece a ligação entre a terra, os oceanos e a atmosfera, forma o interminável ciclo hidrológico, do qual o Homem e os restantes seres vivos retiram a água que necessitam.

O Papel da Vegetação

Os habitats naturais das zonas altas da Ilha da Madeira, área onde decorre o Projecto "Conservação da Freira da Madeira através da recuperação do seu habitat" English Version Versão Portuguesa , compreendem plantas que desempenham um papel muito importante na captação de água através da pluviosidade oculta ou precipitação de contacto (até 3,5 vezes o valor da precipitação real) e que são vitais no balanço hídrico do meio, ou seja, a quantidade de água obtida pela fixação dos nevoeiros por parte da vegetação é superior àquela verificada pela precipitação real. Um dos exemplos a referir são as urzes que, através das suas pequeninas folhas retiram grandes quantidades de água dos nevoeiros contribuindo de forma decisiva para o reabastecimento das nascentes. Estas, por sua vez, alimentam cursos de água, nomeadamente as levadas que a levam até à população, para seu consumo assim como para as suas actividades diárias.

É assim que a água "nasce" na nossa Ilha...




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