"Guardiões" da Natureza...


Um dia após o outro, estes homens abraçam a sua profissão com todo o fervor e dedicação, batalhando pela sobrevivência e manutenção das plantas e dos animais, assim como dos seus habitats. São os "guardiões" da Natureza e zelam por todo este património que afinal é de todos nós!

São 8.00 horas. Lá vamos nós mais uma vez ao Areeiro. Hoje parece que vamos ter sorte com o tempo. Já está a melhorar. Na semana passada estava tanto frio que até parecia que os ossos gelavam. Quando está vento ou frio, o trabalho não é fácil !!!

Falamos os dois sobre tudo e mais alguma coisa até chegarmos ao nosso destino. Estacionamos e começamos a percorrer a vereda.

Hoje é dia das "mangas", ou seja, vamos até determinadas zonas de escarpa, previamente escolhidas, e vamos descer até uma pequena porção de terra com o auxílio de material de montanha. Vamos sentir a adrenalina!!!

Temos de ir a três mangas que já baptizámos como: a "Grande", a "Pequena" e a "Oitenta e Sete". Faz quinze dias que descemos e hoje é dia de voltar a fazê-lo.

Tudo isto para ajudarmos a salvar uma ave que está em risco de extinção, a Freira da Madeira. Às vezes penso que as pessoas não têm a noção do trabalho que é necessário fazer no âmbito da Conservação. Fazemos parte de uma equipa, em que cada um dá o seu melhor para que este Projecto consiga atingir os objectivos pretendidos, ou seja, recuperar esta área que é o habitat da Freira da Madeira, para que a ave não desapareça do nosso planeta.

Já chegámos à primeira "manga". Equipamo-nos com o material de montanha fazendo as amarrações com a devida segurança. A mínima distracção pode ser fatal !!!

Penso no meu filho, no orgulho que terei um dia ao lhe falar desta bela ave marinha, que aqui faz os seus ninhos e que devido ao meu contributo, ela ainda existe! Tenho esperança que nessa altura, já existam muitos indivíduos, e que o número actual, 30 a 40 casais, faça parte de um passado triste!

Bem, vamos lá preparar estes pequenos cubos de veneno, isco para a rataria, e começar a descer. Lá em baixo existem caixas, todas numeradas e identificadas, e o seu interior contém oito destes cubos. Temos que abri-las e registar a percentagem de veneno que foi comido pelo rato, Rattus rattus, ou pelo murganho, Mus musculus, e restituí-lo. Estes predadores são um perigo para os ovos e para os juvenis desta ave. Se as pessoas se lembrassem que não devem deixar lixo nas zonas onde andam, inclusive o lixo "biodegradável" que serve de alimento a estes animais, ou até mesmo fechar devidamente os recipientes do lixo, seria uma grande ajuda! Porque depois é isto... alimentam-se, multiplicam-se e atacam os ovos e os filhotes desta ave!

O meu colega faz-me sinal, está na altura de subir e de ir a outra manga para fazer o mesmo trabalho. Pelo caminho, vamos falando das outras caixas que estão distribuídas numa larga cintura que envolve a área do Projecto. São à volta de 70 caixas, para além destas 17 que estão nas "mangas".

"Manga" após "manga", caixa após caixa, isco após isco,... e as horas vão passando sem nos apercebermos, mas o relógio já marca as 16 h e o trabalho por hoje está concluído.

Voltamos ao carro, envolvidos por um silêncio maravilhoso que nos rega a alma de satisfação por mais um dia de labuta que se revelará compensador. Antes de regressarmos daqui a 15 dias para o mesmo trabalho, na próxima semana cá estaremos para a vistoria das gatoeiras. São cerca de 20, e servem para capturar os gatos selvagens, também predadores da ave e dos seus ovos. É chocante pensar que a maioria destes gatos foram abandonados pelos seus donos "amigos", nas áreas adjacentes, como a floresta, e que depois quando a fome "aperta", sobem até às zonas altas à procura de alimento.

Chegamos ao Areeiro e antes de descermos, vamos tomar um cafezinho quente. O telemóvel toca, é o número do serviço! Afinal, daqui a dois dias cá estarei novamente. Acompanharei uma visita de estudo à área do Projecto. É muito gratificante acompanhar os jovens nestas saídas porque uma grande parte deles, está sensibilizada para a necessidade de conservar e quando lhes é explicado todo o trabalho que está implícito num projecto como este, os seus rostos espelham um espanto e uma admiração consideráveis.

Já estamos no Jeep de volta ao Funchal. O meu colega começa a tagarelar sobre o tempo que trabalha para o Parque Natural da Madeira (PNM), do quanto gosta do que faz, e, entusiasmado pela conversa vai-se lembrando de inúmeros episódios que ocorreram nas Reservas das Ilhas (Desertas e Selvagens), nas Reservas Marinhas (Rocha do Navio e Garajau), e até mesmo aqui, na "Brigada Terrestre" que desenvolve o seu trabalho em toda a área do PNM na Madeira, como é o caso deste Projecto. As gargalhadas são uma constante, e após o aparato, instala-se um silêncio que em nada disfarça a reflexão nostálgica. Num tom de voz mais grave, finaliza o seu discurso, afirmando que todas as áreas protegidas apresentam dificuldades e compensações e que se sente um felizardo por ter o privilégio de trabalhar em estreita relação com a Natureza. Pondero naquilo que oiço, e acabo por lhe dizer que partilho da sua opinião, pois isto é a nossa vida, e de outra maneira não saberíamos vivê-la!


SER VIGILANTE

Louvar o trabalho destes homens é um dever de todos nós!

Na salvaguarda de áreas protegidas como a Floresta Laurissilva, a Ponta de São Lourenço, as Ilhas Selvagens, as Ilhas Desertas, e as Reservas marinhas do Garajau e da Rocha do Navio, o seu desempenho é fulcral, numa causa tão nobre, como é a Conservação da Natureza! Defendem e preservam todo o Património Natural, riqueza única de todos nós, enfrentando muitas dificuldades de várias ordens, por amor e dedicação a uma vida incompreendida por muitas pessoas, mas cheia de recompensas indescritíveis e únicas, que só a Mãe Natureza sabe presentear!!!

Uma das situações a realçar, é todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no âmbito do Projecto "Conservação da Freira da Madeira através da recuperação do seu habitat" English Version Versão Portuguesa, que implica muito esforço e sacrifício, por parte destes lutadores, cujo desejo de evitar o desaparecimento desta ave do nosso planeta, grita mais alto!




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