As almas penadas do Cidrão


A não extinção da Freira da Madeira fica a se dever, em larga escala, ao trabalho de dois homens: Alexander Zino e João Gouveia. A história que aqui conto nunca aconteceu mas isso pouco interessa. As suas personagens são reais, é assim que poderia ter acontecido e é assim que eu gosto de imaginá-la.

  1. Foram estes homens que abriram a porta para um conceito praticamente desconhecido entre a sociedade madeirense da altura: a conservação da natureza e a protecção à vida selvagem.

  2. O Freira Conservation Project ficará na história como o grande responsável por ainda existirem Freiras da Madeira a voar no nosso planeta azul.

Uma noite fria nos fins dos anos sessenta, dois homens descem devagar mas ansiosamente os intermináveis degraus que os levarão até ao miradouro da Pedra Rija, pouco depois do Pico do Areeiro. Vão à procura das "Almas Penadas do Cidrão"; demónios que de acordo com a crença popular, saem à noite dos seus esconderijos para assustar os "cabreiros" e demais valentes que por lá ousam passar. Estes dois homens fortes, mas de figura esguia e agradável, levam consigo uma pequena bolsa com um pouco de pão, chá e um cobertor velho que os ajudará a combater o frio implacável da noite.

Ao chegar ao seu destino trocam duas ou três palavras sobre coisas da vida, que noutras circunstâncias, mesmo à um par de horas atrás seriam importantes. O quotidiano destes homens estava parado, toda a lógica sem sentido das suas arrelias diárias parecia deixada irremediavelmente para trás. Agora, na sua imobilidade ansiosa não passam de dois eleitos prestes a apreciar um espectáculo que a poucos tinha sido mostrado. Repentinamente, com a força de uma explosão vinda do coração, o mais novo estremece e sussurra: "Parece que ouvi alguma coisa". O outro mantêm-se estático, olhando atentamente o céu como se isso o ajudasse a concentrar a sua atenção nos sons em seu redor. Os segundos, quais horas infinitas, passam e a única coisa que ouve é o seu coração...até que um profundo e arrepiante grito rasga a noite: "Sim, sim, são elas... meu bom amigo isto é um chamamento, encontramo-las... afinal eles tinham razão, existe aqui algo que já não pertencia a este mundo: são as Freiras da Madeira".

Com a pouca luz que sai das suas lanternas conseguem olhar bem no fundo dos olhos um do outro; não foi preciso falar. O mais alto dos dois, um homem que está nos seus cinquenta, pensa que vai chorar mas contem aquela lágrima que quer saltar dos seus expressivos olhos, realçados por duas espessas sobrancelhas que teimam em ficar brancas. O outro, um humilde homem de campo habituado a esconder as suas emoções, mantém-se aparentemente mais calmo ocultando o orgulho que tem dentro si. Afinal tinha sido ele que horas antes, através de informação adquirida já não sabia bem onde, tinha desafiado as águias e caminhado em direcção a uma "manga", onde provavelmente estariam alguns ninhos de Freira da Madeira. Fez isto com o coração a bater forte no seu peito; não pelo facto das plataformas onde punha os pés firmes serem tão pequenas que até parecia que estava a caminhar no vazio, mas sim porque sabia que se calhar caminhava em direcção à redescoberta da Freira da Madeira.

A noite passa e os dois homens teimam em não se deixar vencer pelo cansaço, mais uma, mais uma e mais e mais...a cada chamamento confirma-se que a Freira da Madeira ainda anda por ali em números razoáveis, não tinha se extinguido. Finalmente, quando o Sol já começa a querer se libertar da escuridão da noite, e as aves já se encontram longe daquelas paragens e de volta ao azul do mar, Alexander Zino e João Gouveia fecham os olhos cansados; continuam, contudo, a ouvir aqueles estranhos sons que vêm agora das profundezas dos seus sonhos.

Esta história nunca aconteceu tal como é contada, mas isso pouco interessa. As suas personagens são reais, é assim que poderia ter acontecido e é assim que eu gosto de imaginá-la. A partir de quadros soltos que me têm sido descritos pelos intervenientes, é este argumento que o meu imaginário se encarregou de tornar realidade. A verdade, e no fundo o que é realmente importante, é que o Mundo deve a existência desta ave a um punhado de homens - menos de uma mão cheia - de entre os quais estes dois se destacam.

Por estas altura eu era uma criança sem consciência das coisas, boas ou más, de que o homem é capaz. Contudo, na minha imaginação já recriei vezes sem conta estes intensos momentos do fim dos anos sessenta. Já imaginei também o desespero e impotência que todos eles deverão ter sentido, ao verificar que com o passar dos anos as suas aves cada vez chamavam em menor número; cada vez menos Freiras voltavam do mar e para o mar; e cada vez se aproximavam mais da verdadeira extinção, a tal de onde tinham sido resgatadas.

Foram estes dois homens que, com a ajuda de Gunther Maul e Francis Zino, abriram a porta para um conceito praticamente desconhecido entre a sociedade madeirense da altura: a conservação da natureza e a protecção à vida selvagem. Foram eles que possibilitaram o surgimento e posterior manutenção de um projecto - inicialmente chamado Freira Conservation Project - que hoje ainda está activo, e que ficará na história como o grande responsável por ainda existirem Freiras da Madeira a voar no nosso planeta azul. Um grande muito obrigado Srº João Gouveia e Srº Alexander Zino; sinto-me um privilegiado por vos acompanhar e de alguma forma poder contribuir para que o sonho perdure.


Marcos de uma NÃO extinção


1960 - A espécie é considerada extinta há já alguns anos;

1960 - 1968 - Gunther Maul continua a acreditar que a espécie poderá ainda existir;

1968 - A. Zino reproduz junto de pastores chamamentos da Freira do Bugio (que supõe serem semelhantes ao da Freira da Madeira) no sentido de averiguar se estes o reconhecem;

1968 - Um pastor reconhece os sons e afirma tratar-se das "Almas Penadas do Cidrão";

1969 - A. Zino oferece uma recompensa a quem encontrar um ninho;

1969 - Um pastor identifica um possível ninho;

1969 - João Gouveia encontra vários ninhos numa só área;

1985 - Pelo segundo ano consecutivo a colónia não produz qualquer nova ave;

1986 - Dá-se início ao Projecto de Conservação da Freira, até hoje assegurado no terreno exclusivamente por João Gouveia;

1990 - Num desastre sem precedentes um gato mata 10 aves num único episódio;

1999 - Descobertos três novos ninhos numa nova área (última até a data) e é encontrada outra provável área da nidificação;

2000 - O Parque Natural da Madeira consegue financiamento para a implementação do projecto "A recuperação da freira da Madeira através da recuperação do seu habitat" English Version Versão Portuguesa




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