A
Conservação e
Gestão do Pombo-trocaz Columba
trocaz na Madeira
1.
Introdução
Os columbídeos têm uma capacidade
de dispersão bastante grande, pelo que apresentam uma área de distribuição
mundial alargada, onde se incluem inúmeras ilhas (Goodwin, 1985). Nestas,
as pressões naturais impostas pelos ambientes insulares conduziram à
existência de um elevado número de novas espécies a partir de um
reduzido leque de espécies colonizadoras (Quammen, 1996). Hoje em dia,
existem no mundo 138 espécies de columbídeos que são consideradas
vulneráveis por terem uma área de distribuição restrita (Stattersfield
et al, 1998).
Ao nível da Macaronésia, área
biogeográfica constituída pelos arquipélagos dos Açores, da Madeira,
das Canárias e de Cabo Verde, este grupo de aves está representado por vários
endemismos ao nível específico e subespecífico. Assumem destaque os
pombos endémicos do arquipélago da Madeira e do arquipélago das Canárias.
Neste último existem duas espécies, Columba
bollii e Columba junoniae, enquanto na Madeira ocorre uma terceira, o
Pombo-trocaz, Columba trocaz.
A conservação destas três espécies
enfrenta alguns problemas, alguns dos quais são inerentes à sua condição
insular. A redução drástica das áreas florestais onde ocorrem e, mais
recentemente, a introdução de espécies de aves exóticas, especialmente
marcante no caso das espécies canárias (Hernández et
al, 1999), afectou seriamente estes columbídeos. No caso do
Pombo-trocaz, as pressões assumem outros contornos. O objectivo deste
artigo é dar a conhecer alguns dos principais problemas enfrentados por
esta espécie, assim como também alguns aspectos da sua ecologia e
biologia.
2.
Distribuição e Estatuto de Conservação
O
Pombo-trocaz está restrito à ilha da Madeira, apesar de evidências
fósseis sugerirem que a sua distribuição fosse mais alargada, incluindo
a ilha do Porto Santo (Pieper, 1985). Hoje em dia está presente
ao longo de toda a floresta
laurissilva, seu habitat natural. No entanto, esta floresta
está reduzida a 20% da sua distribuição original, pelo que é legítimo
inferir que o mesmo tenha acontecido à área de ocorrência do Pombo-trocaz
na ilha da Madeira.
Apesar de ainda estar considerado
como espécie vulnerável - dependente da conservação (Oliveira et al, 1999), o Pombo-trocaz apresenta um estatuto de conservação
favorável. Um censo efectuado em 1995 aponta para um efectivo
populacional na ordem dos 10300 indivíduos, com um intervalo de confiança
mínimo na ordem dos 5900 indivíduos (Oliveira et
al, in press). Este trabalho, que faz parte de um esquema de
monitorização criado em 1986 (Jones, 1990), mostrou que a tendência
populacional é positiva, ao longo de toda a área de distribuição da
espécie. Um aspecto verificado é que existe uma relação inversa entre
as taxas de crescimento e as densidades relativas encontradas nos
diferentes transectos efectuados em 1986. Este aspecto evidencia o facto
de que a população está a aumentar duma forma mais acentuada nos locais
onde apresentava densidades mais baixas. Um novo censo terá lugar em
Agosto de 1999.
3. Aspectos da Ecologia e
Biologia
3.1. Caracterização do habitat
O habitat do Pombo-trocaz é a
floresta laurissilva, que, em tempos remotos, já ocupou grandes áreas do
continente europeu e que pode ser considerada como um fóssil vivo. Hoje
está restrita aos arquipélagos da Macaronésia, estando particularmente
bem conservada na ilha da Madeira. Neste tipo de floresta, as árvores
mais abundantes são o loureiro Laurus
azorica, seguido pelo til Ocotea
foetens e pela faia Myrica faya.
Contudo, do ponto de vista da dominância, isto é, a área coberta pela
copa de cada espécie (parâmetro mais relevante para a avifauna), o til
surge em primeiro lugar (70% da dominância) seguido pelo loureiro e pela
faia (Neves et al, 1996).
3.2. Uso do Habitat e Dieta
O Pombo-trocaz ocupa diferentes áreas
da floresta ao longo do ano, apresentando movimentos aparentemente
bastante amplos (Oliveira & Jones, 1995). Do ponto de vista estrutural
as árvores são usadas preferencialmente ao longo do ano. Contudo, o uso
dos estratos arbustivo e herbáceo assume também algum destaque. A
procura destes estratos, principalmente do herbáceo, assume particular
relevo durante a segunda metade da Primavera e o princípio do Verão (Menezes,
1997) quando a disponibilidade
total de baga na floresta atinge os seus valores anuais mínimos. Esta
mudança sazonal da utilização do habitat demonstra a importância da
baga como fonte alimentar para estas aves. O facto do estrato herbáceo
ser usado ao longo de todo o ano, mesmo quando existe elevada
disponibilidade de baga, sugere que este não é só uma fonte alimentar
alternativa, como também um complemento à dieta do Pombo-trocaz.
Refira-se que um estudo, ainda em curso, sobre a dieta desta espécie,
através da análise microscópica de excrementos, permitiu identificar,
até ao momento, um elevado número de plantas
herbáceas que são consumidas regularmente (Oliveira & Nogales,
com. pess.). No que diz respeito ao uso do estrato arbóreo, o til é a
espécie preferida ao longo de todo o ano. Isto fica a dever-se
fundamentalmente ao facto desta espécie apresentar maior homogeneidade e
disponibilidade anual de baga. Desta forma o til assume-se como a espécie
arbórea chave para o Pombo-trocaz.
3.3. Reprodução
Este é provavelmente o aspecto
menos conhecido da ecologia e biologia do Pombo-trocaz. Existem referências
de ninhos encontrados em todos os meses do ano, excepto Janeiro, Março,
Junho e Dezembro (Bernstrom, 1951). O tamanho da postura é geralmente de
um ovo (Bannerman & Bannerman, 1965), havendo grande
probabilidade de ser posto um segundo ovo no caso do primeiro se
perder (Zino & Zino, 1986). Não há qualquer informação sobre o número
de posturas anuais, mas Zino & Biscoito (1993) propõem que existe uma
relação directa entre a reprodução e abundância de baga na floresta.
Os ninhos são construídos em árvores, muitas vezes localizadas em zonas
de difícil acesso e também em buracos e pequenas lajes existentes em
penhascos e encostas muito íngremes.
4.
Ameaças e Medidas de Gestão
No passado, o Pombo-trocaz foi
bastante afectado pela destruição do seu habitat. Hoje em dia esta é
uma ameaça que já não se coloca, pelo facto de toda a área coberta
pela Laurissilva ter o estatuto de Reserva Natural Integral ou Parcial,
sob a jurisdição do Parque Natural da Madeira (Oliveira & Heredia,
1996). Outra ameaça histórica dizia respeito à pressão de caça legal
que lhe era dirigida até 1989, data a partir da qual a espécie passou a
gozar de um estatuto de protecção integral.
Actualmente, a principal ameaça
está relacionada com o facto do Pombo-trocaz causar extensos estragos nos
campos agrícolas localizados na periferia da floresta. O produto mais
procurado pelo pombo é a couve, que é plantada na ilha da Madeira duma
forma intensa ao longo de praticamente todas as áreas agrícolas. Por
consequência, o Pombo-trocaz é uma ave impopular, perseguida e abatida
ilegalmente. Por outro lado, o descontentamento das populações rurais
leva a que se criem fortes pressões sobre as entidades responsáveis, de
forma a que a caça ao pombo seja aberta. Outro resultado deste
descontentamento é a resistência que estas populações colocam à
implementação de qualquer acção dinamizada pelo Parque Natural da
Madeira.
Sendo assim, e como forma de
ultrapassar este problema, foi lançado um programa que, por um lado,
investiga a aplicação de diferentes métodos de protecção das culturas
e, por outro, estuda os
factores que condicionam o uso dos campos agrícolas.
Relativamente aos métodos usados
para afugentar as aves, após 5 anos de experiências, verificou-se que o
mais eficaz são os canhões espanta-pássaros a gás. Estes, quando
usados seguindo algumas normas de utilização comprovadas no terreno,
apresentam resultados próximos dos 100% de sucesso. O grande factor que
limita a implementação em massa destes métodos prende-se com a não
cooperação dos agricultores, fundamentalmente daqueles menos
esclarecidos. Outro método que se mostra bastante eficaz é a cobertura
dos terrenos com uma rede de protecção. Este sistema apresenta a
vantagem de ser mais económico, mas encontra a mesma falta de colaboração
por parte dos agricultores.
No que diz respeito à investigação
dos factores que condicionam o uso dos campos agrícolas, os esforços
foram canalizados no sentido de se compreender dois aspectos fundamentais:
que campos são preferidos, relativamente à sua localização e demais
envolvente; e que características dos campos, por ex. existência de
muros ou outros obstáculos na sua periferia, influenciam o seu uso por
parte das aves.
Os dados obtidos, correntemente em
análise, apontam no sentido de que os factores que influenciam a escolha
dum determinado campo se prendem com duas das 18 variáveis analisadas: a
proximidade à floresta e o afastamento
a fontes de perturbação humana. Por outro lado, não foram identificadas
quaisquer características inerentes aos campos que tenham influenciado
significativamente a predação.
Uma análise mais profunda desta
informação poderá mostrar que pequenas alterações na forma como os
campos são plantados poderão ser suficientes
para minimizar os estragos existentes. Contudo, esta solução encontrará o mesmo obstáculo do que aquelas medidas actualmente
em curso: falta de colaboração por parte dos agricultores. Desta forma o
futuro do Pombo-trocaz passa por uma grande campanha de educação e
sensibilização ambiental junto dos agricultores madeirenses.
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